EXPERIMENTALISMO SEM NOME

por Bruno Moreschi


Muito se tem o que escrever sobre os trabalhos da artista Julia Kater. Entretanto, as questões suscitadas por suas obras parecem ser inomináveis. Julia não é uma fotógrafa tradicional, tampouco uma simples criadora de colagens. Sua produção situa-se numa zona transitória de meios, técnicas e propostas, mistura típica do experimentalismo que tanto marca a arte contemporânea.

Seria demasiadamente simplista afirmar que Julia realiza fotografias. É fato que seu material básico são imagens em papéis fotográficos. Mas isso é apenas seu ponto de partida. Com as fotografias escolhidas, a artista desconstrói a imagem de maneiras variadas e complementares. As composições de suas obras não se dão por regras tradicionais, mas sim, pela justaposições de cenários. Seus registros fotográficos não são reféns da preocupação excessiva da tecnologia, algo que muitas vezes limita o fotógrafo a ser um fanático por novas máquinas e lentes. Julia é uma artista que experimenta na fotografia.

Colagem também é um termo limitado para descrever seu trabalho. Afinal, as fotografias de Julia não são de fato coladas. São justapostas. Isso produz algo curioso: até mesmo na colagem, que carrega em si um alta carga de experimentalismo, Julia experimenta. As colagens tornam-se encaixes – união frágil que sugere interessantes metáforas sobre a aproximação de corpos que é, a priori, efêmera.

Fotografar sem fazer fotografias, produzir colagens sem de fato colar, atitudes artísticas como essa notabilizam o trabalho de Julia. Faz com que sua produção fuja da obviedade e trilhe um caminho notadamente experimental. Mas não são apenas as técnicas utilizadas por Julia que destoa de grande parte do que se vê nas artes visuais. Com uma carreira artística que dá sinais de crescente valorização, Julia parece também determinada a experimentar nos, digamos assim, próximos passos artísticos.

Pode-se esperar que os futuros conjuntos de imagens da artista se tornem cada vez mais coloridos, de fácil conquista. A resposta de Julia é clara. Um de seus trabalhos mais recentes é um pouco usual políptico. As imagens não estão lado a lado, mas sim, uma dentro da outra. E mais: como se não bastasse, tudo ali é só branco. O céu de seus trabalhos anteriores é agora pura brancura. Tão logo isso vai mudar novamente. Essa é a resposta de fato.

Mira Schendel afirmava que o experimentalismo muitas vezes se dá no não fazer – o que ajuda a compreender seus desenhos mínimos. Com resultados sempre paradoxais, Julia experimenta ao fazer diferente. Um alívio em um mundo artístico cada vez mais taxonômico, rotulado por clichês.