Bruno Moreschi
Muito se tem escrito e se tem dito sobre a diversidade da arte contemporânea. Dos textos mais introdutórios aos mais complexos, raros são os teóricos relevantes que não começam seus apontamentos com esta que talvez seja a mais evidente característica da arte dos dias de hoje.
Em Arte contemporânea: Uma História Concisa, o crítico inglês Michael Archer descreve a arte recente como práticas que se utilizam de tinta, metal, pedra, luz, ar, som, palavras, pessoas e muitas outras coisas. Para ele, essa mistura é algo tão múltiplo quanto “desconcertante”. De forma mais complexa e na busca pelos sinais fracos e universais de nosso tempo, o alemão Boris Groys avisa ao público: “não há nenhuma possibilidade de o espectador distinguir entre uma obra de arte e uma ‘simples coisa’ com base só na experiência visual.” Por fim, quando questionado sobre o que seria a arte contemporânea, o artista alemão Joseph Kosuth respondeu com um silêncio de dois minutos. Em seguida, avisou ao ouvinte que bastava ele preencher aquela lacuna com o que bem entendesse.
Esse curto e simplório panorama de definições deixa evidente que, para olhares menos conservadores, é justamente essa multiplicidade aleatória o mais fascinante da arte de hoje. Recortes temáticos ainda costumam ser uma prática comum nas exposições de arte. Um texto, porém, que se limita ao recorte curatorial da mostra em questão pode muitas vezes ir contra a tão fascinante multiplicidade artística de hoje. Diante de três artistas que individualmente já são tão interessantes, não pretendo correr esse risco.
A proposta curatorial da exposição Carla Chaim, Julia Kater, Marcia de Moraes: Um de três é bastante clara: a maneira com que cada uma das três jovens artistas brasileiras contemporâneas lida com a questão do corpo em suas obras. Nos trabalhos de Carla Chaim, o corpo é evidente a ponto de ser o próprio instrumento artístico de suas obras. Em Julia Kater, há um corpo sem identidade, nitidamente perdendo-se diante de vastos cenários. Já para Marcia de Moraes, o corpo é visto sob o ponto de vista interno, como se revelasse a nós suas próprias entranhas.
Deixo, porém, as questões sobre o corpo para que o próprio público opte ou não em aprofundá-las. E retomo a questão da multiplicidade da arte contemporânea. A razão disso é bastante simples. Escrever sobre as especificidades das três artistas é se deparar com formas distintas e complementares de se fazer arte nos dias de hoje. Ressaltar as escolhas artísticas dessas criadoras é, de alguma maneira, contribuir para a discussão do que me parece mais rico e fascinante na arte contemporânea: a sua resistência a enquadramentos mais genéricos e rígidos.
Obsessão e esforço
Um mesmo trabalho de Marcia de Moraes possui a curiosa capacidade de levantar duas questões de naturezas bastante distintas. Uma de aspecto mais formal. Outra relacionada ao próprio conceito do desenho.
Há pelo menos cinco anos, a artista insiste em uma gramática visual repleta de formas semelhantes. A insistência de Marcia parece reforçar os pensamentos sobre o ornamento na arte tão veementemente defendidos pelo teórico alemão Alois Riegl, um dos fundadores da história da arte contemporânea. Riegl sempre considerou um erro enorme o fato da arte moderna ter deixado em uma posição secundária a arte decorativa. Para ele, os ornamentos e suas múltiplas relações cromáticas podem servir de ponto de partida para se pensar no impulso primitivo criativo, algo característico de qualquer obra de arte. Ao reorganizar sua teia de formas, Marcia nos apresenta esse impulso criador e seus mais múltiplos resultados. E isso, por si só, já é algo bastante complexo.
Para além da forma, os trabalhos de Marcia possuem um aspecto conceitual que pode não ficar evidente em um primeiro olhar. É preciso não se esquecer que suas composições tão típicas da arte pictórica são feitas com o riscar do lápis no papel. Ao preencher seus desenhos com manchas coloridas feitas à lápis e não à tinta, Marcia nos mostra um trabalho que é resultado de uma insistência custosa. Rabiscar não é pintar. Rabiscar é insistir em algo. Assim, um desenho de Marcia pode ser visto como uma espécie de manifesto em defesa ao desenho. Um desenho que pode e deve receber a mesma atenção que se costuma reservar à pintura.
Fotografia e desconstrução
Considerações típicas do mundo da fotografia mais tradicional não parecem dar conta do trabalho fotográfico experimental de Julia Kater. Ela não parece se preocupar com termos como enquadramento, luz e com o vasto mundo de especificações de modelos de câmeras fotográficas.
Julia rompe com as regras. Dessa maneira, ela apresenta saídas interessantes para a fotografia que quer ser vista como arte. Conversar com a artista sobre seu trabalho é respirar aliviado: ainda há fotógrafos que deixam de lado o falatório tecnológico do mundo da fotografia para falar em experimentos mais anteriores como recortar imagens e sobrepor cenários.
Juillet (2011), um recorte de fotografia impressa em algodão, é talvez uma das obras mais impactantes da exposição Um de três. Nos quase dois metros de altura, o trabalho mostra uma mesa de jantar invadida por um céu branco que parece derreter. Como na maioria dos outros trabalho de Julia, o resultado é um cenário estranho. Estranheza essa produzida justamente pelo fato da artista ir na contramão do que se costuma se ver em fotografias mais tradicionais. Há mais céu branco do que qualquer outro elemento no trabalho.
Em suas fotografias experimentais, Julia parece deixar claro que está interessada no ruído visual. É como se a artista almejasse construir uma trajetória repleta de obras feitas pela desconstrução da fotografia do que pela própria fotografia. E, assim, num resultado paradoxal, Julia produz fotografias desafiando a própria prática.
Projetos e processos
A multiplicidade da arte contemporânea faz de alguns artistas verdadeiros projetistas. Suas obras não parecem ser a insistência de uma prática manual ou a desconstrução de um meio artístico. Elas são expostas como a concretização de uma investigação muito mais pensada do que de fato feita em termos práticos.
Carla Chaim parece caminhar nessa direção. Talvez por isso seus desenhos, suas instalações, seus vídeos e suas performances sejam quase sempre monocromáticos. Pode-se supor que o preto, o branco, o cinza de seus trabalhos sejam um aviso claro que ela não quer que o público desvie seu olhar para questões mais ligadas ao formal. O que realmente parece interessar Carla é o processo, ou melhor, a experiência do processo em si. Assim, dentre as três artistas da exposição, Carla é claramente a que mais evidencia a variedade de processos e experiências da arte contemporânea.
Em comum, a maioria de seus trabalhos possui o próprio corpo da artista como o principal elemento. Seus desenhos podem ser feitos por canetas amarradas em seus braços. Círculos no chão são projeções de movimentos de seu corpo sobre um suporte. Suas pinturas, o resultado do seu sopro em uma brinquedo de bolinhas de sabão. Apesar de bastante jovem, Carla já pode ser vista como uma artista que faz arte do prolongamento de si mesma.
“O artista é o ser”, dizia Salvador Dalí. Carla confirma a sentença. Entretanto, não insiste no estrelismo já tão desgastado da arte contemporânea. Seu corpo é tão objeto quanto o cabo de um pincel.
(*) Bruno Moreschi é jornalista especializado em arte plásticas e artista plástico.