Leonardo Da Vinci descreveu, no século XV, a "Câmera Obscura" nos seus cadernos de notas:
"Quando as imagens dos objetos iluminados penetram num
compartimento escuro, através de um pequeno orifício e se
projetam sobre um papel branco situado a certa distância,
veem-se, no papel, os objetos invertidos com suas formas e
cores próprias".
Da Vinci conseguia, assim, projetar a paisagem do exterior de forma invertida para esse "quarto de desenhar", e podia então traçar o contorno da imagem para posteriormente pintá-la.
Nas diversas estratégias que a artista Julia Kater emprega, com o intuito de interrogar nossa percepção visual diante das mais diversas paisagens, uma delas é o uso de uma ponta seca que delineia formas sobre a superfície de um papel monocromático.
Essa estratégia remonta, de certa forma, à relação entre projeção de luz e desenho, como utilizada por Da Vinci em seu quarto de desenhar. Porém, a operação de Kater sobrepõe uma nova opacidade ao processo da câmara obscura. Afinal, não temos como saber se a paisagem que ela sutilmente nos sugere se encontra logo abaixo dessa superfície, obliterada
por uma espécie de avalanche, se foi projetada sobre o papel ou, ainda, se estamos diante de uma livre criação, uma paisagem imaginária. Entre querer saber e não saber, a paisagem sugerida se desprende desse embate racional para, enfim, ganhar autonomia como um símbolo a ressoar nas nossas ilimitadas fabulações.
A poética dessas tantas paisagens mutantes, que Kater evoca no percurso de sua produção, são pródigas em criar um deslocamento inesperado entre o visível e instâncias sensoriais que realizam conexões formais com ironia e perspicácia, como se o mundo, de repente, se reorganizasse diante dos nossos olhos por meio de uma memória que não é histórica, mas sim uma lembrança da forma, do contorno e do volume das coisas e dos eventos que arquivamos durante nossa trajetória. São como referentes descarnados do seu contexto, que agora renunciam seu tempoespaço no mundo para emergir com força – auxiliados também pelas incisões que a artista realiza na superfície – promovendo encontros e confrontos entre linhas, texturas, volumes, personagens e paisagens.
É por meio de choques e junções, espécies de atos falhos da capacidade ocular, que a artista nos convoca para pensar os jogos de representação da fotografia deslocados do referente imediato. É assim que a imagem de uma cachoeira descontinuada pelo corte da câmera, da série "Como se fosse", se prolonga placidamente pelo ombro de uma pessoa criando um desenho factível, mas ao mesmo tempo com ares surrealistas.
O recorte da cena, promovido pela câmera fotográfica, segue como foco de atenção da artista em outras duas séries. Ao perceber que fotografar consiste obrigatoriamente no exercício de subtrair o entorno, gerando uma fratura no tempo-espaço, Kater sobrepõe na série "Encontro" uma velatura que revela e esconde ao mesmo tempo, refazendo o quadro onde ocorre pontos de contato entre pessoas, formas, objetos. O encontro de figura e fundo promove um sumiço temporário de algo ou alguém na duração da paisagem, mas que, ao ser flagrado assim no instantâneo fotográfico, representa um apagamento irrevogável de uma das partes.
Em "Árvores Urbanas", o corte da cena é também protagonista, mas agora a artista nos leva a perceber não mais o hiato promovido pelo instante em que figura e fundo se amalgamam, mas sim numa inversão de polos que só um olhar em débito com o olhar enfastiado do cotidiano consegue ser arguto o suficiente para perceber.
O que parece ser uma mera observação sagaz, na verdade é uma imagem manifesto sobre como podemos reorientar nosso olhar a perceber o entorno com nuances que sublevam nossa percepção. Muitas vezes, o sentido artístico de um projeto pode estar na forma como ele desarma nosso olhar automatizado para o mundo, revelando assim parcelas de beleza e novas fronteiras do pensamento que se encontravam enclausuradas na paisagem cotidiana.
"Como se fosse" é uma espécie de noema da fotografia. As coisas definitivamente não são tal e qual a vemos ou como a fotografia as representa. Mas é como se fosse... Julia Kater, com sua poética envolvente e seu estilete preciso, abre fendas para investigar o que se oculta entre a aparência e a espessura do mundo.